|
"Não tenho, não fumo", disse eu com mais mãos do que voz. O velho riu-se por debaixo da tosse e da barba imunda. "Eu sei que não tens, pá, eu sei que não fumas. Já sabia", e riu-se mais ainda, "Então não vês que eu sei tudo, não vês que sou deus?". E com toda a honestidade não tinha visto, de facto, de modo que pedi desculpa e retomei o caminho, mas deus veio atrás de mim, engasgado de riso e talvez de pneumonia, não evitando um encontrão no cego que vende cautelas na esquina. "É que não era para mim, percebes, o cigarro não era para mim, por isso é que perguntei". Acenei que sim, e atravessei a passadeira. O velho deixou o riso do outro lado da estrada, seguindo-me numa corridinha reumática. "Deixa lá o cigarro, pronto. Eu também não fumo, não era para mim. Mas arranja-me um lápis, tens de me arranjar um lápis". "Não tenho", lamentei, e mostrei as mãos vazias outra vez, já no vão da entrada. O velho perscutou-me os dedos, desconfiado, e pôs-se muito sério de repente. "Dá-me lá um lápis, eu sei que tens, não vês que sou deus. Não precisa de ser um inteiro, pode ser só um bocadinho. Partes um ao meio, dás-me a metade que sair mais pequena, que eu não te chateio mais". Ainda receei que tentasse subir atrás de mim, mas deixou-se ficar na rua, a contar os autocarros.
...
- Qual? Aquele velho barbudo que parece tuberculoso e diz a toda a gente que é o diabo? - A mim disse-me que era deus... - Não, estava a mentir, era a ver se te enganava. É o diabo.
|